Memória
Refletindo sobre a parte de mim que gosto de esquecer
Tenho refletido sobre as certezas da vida, cavucado meu passado buscando curar feridas antigas, a fim de proteger um “eu” futuro de ciclos danosos a mim.
Pensar sobre o passado, relembrar experiências e pensar na pessoa que um dia fomos é algo complexo, não somos narradores confiáveis de nossas próprias histórias – assim como também não são os outros – quando relembramos, existe eventos, emoções e crenças que nos fazem lembrar de determinada época, ano ou acontecimento de uma forma diferente.
Esse passado mencionado pode ser distante ou recente, o que quero dizer é que por vezes, não nos vemos com bons olhos.
Por motivos que não vem ao caso, eu declarei em todos os anos da minha vida adulta até agora, que eu demorei para começar a viver. Falei muitas vezes que minha vida começou tarde, que só aos 18 anos comecei a ser eu mesma. O que começa a me incomodar nessas afirmações tão absolutas é o questionamento de que, se comecei a viver recentemente, o que fiz antes?
Quem fui antes? O que senti? A pessoinha que comandou meu corpo, rio meus risos, escolheu minhas escolhas, amou meus amados, fez amizades e poetizou o mundo todo até aquela idade que começa a ser adulta. Ela era apenas uma versão menos válida de reconhecimento? Um vir-a-ser que foi apenas uma demodo que seria eu depois?
Me vem com certo carinho agora, o pensamento de que foram os meus passos antigos que me acolheram e criaram caminho para que eu chegasse no lugar e momento em que considerei seguro “ser eu”, em que se iniciou a festa de “já que sou, o jeito é ser”.
Tudo isso brota em mim quando um amigo, casualmente, me fala que em uma viagem de adolescência com um grupo de jovens, ele se lembra de mim cantando “Mariana” (Mariana conta 1... conta 1 é Mariana (...)) a madrugada inteira no ônibus, e na volta, lendo enquanto todos dormiam.
Pensar nessa menina que devia ter 12 anos e ficou cantando uma madrugada toda, rindo e brincando com outras pessoas foi chocante para mim. Nas minhas crenças pessoais estava inscrito em pedra camilla foi uma criança triste, uma casca, tímida e sem a capacidade de fazer amigos, se expressar e se divertir.
E essa memória compartilhada, que também era muito vívida na minha própria cabeça me fez pensar que eu já existia antes.
Olha só, que notícia chocante! Eu, com 12 anos, era uma pessoa! Era capaz de fazer graça, de não dormir de madrugada, de rir sem culpa e me divertir, que contrastante aceitar essa memória depois de repetir por no mínimo 6 anos que minha vida era recente.
Essa dissociação que eu, sem perceber, criei entre a eu oprimida e não-existente do passado com a eu livre e viva do presente, como que para afirmar a mim mesma que aqueles sofrimentos estão num lugar que não existe mais e foram sofridos por uma pessoa que também não sou eu.
Acho que vou até além: se eu transformasse em fato a afirmação “comecei a viver aos 18 anos”, todo o sofrimento e histórias anteriores a essa afirmação já não teriam importância, não precisariam ser rememorados, sentidos e aceitos, pertenceriam a um vazio anterior à própria existência.
A verdade é que eu – como você – comecei a existir quando nasci, todo o meu esforço em me manter de pé pela primeira vez, de correr, de continuar respirando, de aprender a ler, de escolher continuar lendo e sonhando, tudo isso foi real. Os sofrimentos e felicidades que eu vivi na minha infância foram sentidos por uma pessoa que estava vivendo aquilo, não só passando por aquele abismo de problemas muito grandes para uma criança conseguir lidar.
Aceitar isso é acolher o esforço que eu fiz para ser eu. Não fui um presente de maioridade. Sou uma essência tecida – por mim – em situações duras e adversas. Mas que me fizeram eu.
Dizem que os considerados loucos têm medo de ao buscar tratamento para seu tormento, no processo, perderem algo essencial a sua existência.
Acredito que o que constitui a nossa loucura – ou história – são todos os fragmentos do que já fomos, as partes terríveis e incríveis, os dias péssimos, os bons e os excepcionais. Por isso não vale a pena o esforço de negar o passado, é algo que só nos machuca e ironicamente, mina o que verdadeiramente somos.
A segunda reflexão que tenho ao contemplar as memórias do passado é sobre como é importante também não existirmos só, muitas vezes, quando está difícil reconhecer as verdades sobre nós, quem nos guiará em meio a névoa da autodúvida será nossas conexões, nossa comunidade, porque podemos até lembrarmos das coisas no nosso ponto de vista, mas nunca existimos sozinhos, nem nos nossos momentos mais solitários.

engraçado que cada dia encontro uma coisa a mais para amar em você.. suas palavras são lindas, são certeiras e sinceras. espero ler mais de você
PELO AMOR DE DEUS PUBLICA UM LIVRO